A Coragem da Igreja de Esmirna
Quando a fé custa tudo. Um retrato histórico da igreja de Esmirna
Por volta do ano 95 d.C., o apóstolo João escreveu uma carta, por ordem de Jesus Cristo, para a igreja de Esmirna, relatando a situação da igreja e o que estava por acontecer. Nos primeiros séculos da igreja, ser cristão significava viver sob a constante ameaça de morte.
As perseguições eram terríveis. Durante o governo de Nero, por exemplo, faltou madeira para fazer cruzes. Paulo foi decapitado. Pedro foi crucificado. Cristãos eram cobertos com piche e queimados vivos para iluminar as ruas de Roma. Outros eram costurados em peles de animais e jogados aos cães ferozes.
A situação era tão absurda que Plínio, um jovem governador romano, escreveu ao imperador Trajano pedindo orientação sobre como lidar com os cristãos. Em sua carta, Plínio descreveu o que observava dos cristãos:
...têm como hábito reunir-se em um dia fixo, antes do nascer do sol, e dirigir palavras a Cristo como se este fosse um deus; eles mesmos fazem um juramento, de não cometer qualquer crime, nem cometer roubo ou saque, ou adultério, nem quebrar sua palavra, e nem negar um depósito quando exigido. Após fazerem isto, despedem-se e se encontram novamente para a refeição... (Plínio, Epístola 96).
Eram pessoas pacíficas e éticas. Mesmo assim, Plínio executava aqueles que se recusavam a negar sua fé, oferecendo-lhes a chance de adorar as estátuas do imperador. Porém, muitos preferiam a morte.
Ricos em Cristo
Como relatado em Apocalipse 2:8-11, a igreja de Esmirna não era rica em bens materiais, mas era rica em Cristo. Eles conheciam a Jesus de verdade, e Jesus os conhecia. Para eles, a riqueza verdadeira não se media em posses ou conforto, mas em como Cristo os via. E mesmo sendo ricos dessa forma tão profunda, Jesus não lhes prometeu uma vida livre de sofrimento. Ele foi direto: "Não tenha medo das coisas que você vai sofrer". É uma palavra que soa estranha aos nossos ouvidos hoje, acostumados a um evangelho tão fácil que muitas vezes esquece das lutas reais da fé e do compromisso que é ser cristão.
A história de Policarpo
Cerca de 60 anos depois da carta de João, a grande perseguição chegou à igreja de Esmirna. Era o ano 156 d.C. As crueldades eram tão grandes que até os espectadores estremeciam de horror. Obrigavam os cristãos a andar sobre espinhos e cravos com os pés já machucados. Outros eram açoitados até que os tendões e veias ficassem expostos. Além das feras, do fogo e dos açoites, muitos cristãos foram lançados do Monte Pagos. Muitos morreram despedaçados.
Nessa época, um cristão chamado Germânico foi jogado às feras. Ele enfrentou a morte com tanta coragem que muitos se converteram ao testemunhar sua bravura. A multidão, enfurecida por tamanha ousadia, clamou pela morte de Policarpo, o bispo de Esmirna.
Policarpo se escondeu quando soube que era procurado, mas foi denunciado por um escravo que cedeu à tortura. Antes de ser levado, fez algo surpreendente: serviu uma refeição aos soldados que vinham prendê-lo e pediu um tempo para orar. Orou com tanto fervor que os próprios soldados se arrependeram de prendê-lo, mas ainda assim cumpriram suas ordens e o levaram ao procônsul.
"Eu sou cristão"
Diante do procônsul, ofereceram a Policarpo a chance de negar a Jesus e salvar sua vida. Sua resposta é algo que precisa ecoar em nossos ouvidos até hoje:
"Eu o sirvo há oitenta e seis anos, e ele não me fez nenhum mal. Como poderia blasfemar o meu rei que me salvou?"
O procônsul insistiu, tentando convencê-lo. Policarpo foi ainda mais direto:
"Ouça-me declarar com ousadia: eu sou cristão."
Vieram as ameaças. Ameaçaram jogá-lo aos animais selvagens. Policarpo disse:
"Mande trazê-los, porque não estamos acostumados a nos arrepender do que é bom para mudar para o que é mau."
Ameaçaram queimá-lo vivo. Suas palavras foram estas:
"Você me ameaça com fogo que queima durante um momento e logo se apaga. Você não conhece o fogo vindouro do julgamento eterno reservado para os ímpios. Por que está se delongando? Faça o que lhe agradar."
A vitória final
Amarraram Policarpo numa estaca e acenderam o fogo. Enquanto as chamas subiam, ele cantou um salmo de louvor a Deus. O fogo queimava em círculo ao seu redor, mas não o consumia. Foi preciso que um soldado o atingisse com uma lança. Tanto sangue jorrou que apagou o fogo. O corpo de Policarpo já desfalecido foi finalmente queimado completamente. Os cristãos recolheram os ossos que restaram, descrevendo-os como "mais preciosos que pedras preciosas e mais puros que o ouro".
Mesmo diante de tamanhas atrocidades, nas catacumbas de Roma, onde muitos cristãos foram sepultados nos primeiros séculos da igreja, encontravam-se descrições como:
"Vitorioso em paz e em Cristo."
"Ao ser chamado, foi-se em paz."
Precisamos considerar que muitos destes restos mortais foram encontrados com a cabeça ao lado do corpo, sinais de terem sido decapitados, ou com ossos quebrados, sinais de terem sido torturados. Mesmo diante disso, ainda assim eles se consideravam vitoriosos. A vitória deles não estava na vida, mas na morte com Cristo.
Nossa esperança
Vivemos em uma época onde a palavra "esperança" foi esvaziada de seu verdadeiro significado. Esperança virou sinônimo de otimismo barato, de positividade forçada, de uma fé que promete apenas bênçãos e nunca cruz. Mas a esperança que sustentou Policarpo na fogueira era de outra natureza completamente diferente.
Cristo nunca prometeu vida fácil. Nunca prometeu saúde perfeita, prosperidade garantida ou ausência de dor. O que ele prometeu foi algo infinitamente maior: vitória sobre a morte eterna e salvação dos nossos pecados. Nossa esperança não está em escapar das dificuldades desta vida passageira, mas em estar com Cristo para sempre, onde não há mais morte, nem pranto, nem dor.
Policarpo entendeu isso até o último suspiro. Diante das chamas, ele não estava perdendo sua vida, mas ganhando a eternidade. Suas últimas palavras revelam a profundidade desta compreensão: "Aqui na terra podem me queimar por uma hora, mas não vou queimar por uma eternidade no inferno."
É esta esperança sólida como rocha que nos sustenta quando tudo desmorona. Não é fuga da realidade, mas a única realidade que permanece quando tudo mais passa. É a certeza de que nossas aflições momentâneas produzem um peso eterno de glória que não pode ser comparado. É saber que, mesmo que percamos tudo aqui, ganhamos tudo lá. É a convicção de que morrer com Cristo é ganho, não perda.
Que sejamos firmes em Cristo. Que nossa fé seja verdadeira, não superficial. Que nossa esperança esteja ancorada não nas promessas passageiras deste mundo, mas na garantia eterna de estarmos com aquele que venceu a morte. E que, se necessário, também possamos dizer com a mesma coragem inabalável de Policarpo: "Eu sou cristão."
Baseado em Apocalipse 2:8-11, no livro "O Livro Dos Mártires" de John Foxe e nos relatos históricos da igreja de Esmirna